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(uma charada): há brincos na cauda furam falam como mães

por Frederico Klumb


(uma charada):
há brincos na cauda furam falam como mães 

 

CAP 1: Prólogo das vozes ou Quando não e não aos sinos:

queria dizer dor queria
dizer não perder as pernas
durante o banho não
fazer caso quando não falta de fato comida
são duas casas de marimbondos
de frente para o trator tião atrás gritando
ôoo          boi                       bôooi      marimbondo não faz caso
de voz e mão não é engraçado?
queria pernas fortes

ser o cágado tocado pelas cartas:

segundo a anedota foi transportado da cidade ao pasto, caiu na terra sem escolha e
sem aviso: à frente havia a ilha.
e como a primeira voz que soava gritava algo como é sempre um pouco tarde, querendo dizer que antes da ilha seria sempre preciso cruzar com olhos e bocas o que estava em volta ou então que tudo estaria cedo demais para ser feito, o cágado olhou o que havia para ser visto: havia um casarão com pedra madeira e telhados conhecidos e havia também algumas máquinas de homens, havia muitos insetos, rodopiando por dentro de um ar que não era tão quente, e dentro desse mesmo ar alguma coisa que fazia com que se agitasse também e esticasse dedos que não existiam na tentativa de alcançar algum dos insetos, que invariavelmente saíam vitoriosos no movimento.  
e embora houvesse pouca pedra com rejunte, o que garantia que a sorte pudesse ser sorte e mais cartas se pusessem a virar com a mínima incidência de um vento na varanda, havia ali ainda muita pedra e o cágado paralisou-se pensativo num canto, como se na vida existisse o momento de pensar e o de fazer, por que então o vento que parece ser muito maior não é capaz de dar conta dos insetos que insistem em zombar as coisas quietas?, pode ter pensado.
para mais, o novo espaço coberto por telhas a que tristemente deveria conformar seu casco, fosse ainda maior que a casa antiga não tinha dimensão suficiente para competir com o que estava para fora, o quanto o céu se abria nos olhos até acabar os cantos do rosto, excetuando-se os casos em que fosse cavalo quem olhava.
e havia logicamente muitos cavalos também, para além da varanda da casa, beirando as subidas dos morros, simultaneamente margeando o que era terra solta no mato e os limites das plantações na parte baixa do vale, cada quadradão de uma cor um pouco diferente da do outro, algum tom de verde ou amarelo, algum marrom de terreno em preparo.
aí, os cascos tremem. e quando se há casco talvez de nada valha dobrar o metal dos sinos. certamente não há tanta serventia para o metal junto das onças quando não temos mesmo mãos, deve ter especulado o bicho, já alcançando a varanda em sua primeira saída esquiva.

pernas de entender o pasto
não às bocas de fala
minha testa no meu órgão conjugando
a tarde muitos livros abertos
em sujeira que não adoece vaca:
as paredes sim as tomadas mais

panelas se tanto
de barro
comida sem nomes de vidro
discutir a terra
reforma com corpo

 *** 

CAP. 2: Quando as patas testam as mãos ou o casco se apaixona pela ilha 

tião ateava fogo no mato. mais uma igual vou eu mesmo mato os três. o cágado ainda estava estacado no limite de luz da varanda. não era exatamente um limite inteiro, porque o bicho se escondia apenas de uma pequena nesga de sol, não do piso escuro, comum, tão qualquer e bonito. era sim um limite inteiro com alguma justiça, ao roça roça do terceiro, menor passo da borracha dura encouraçada pesando o casco em movimento na cerâmica, houve o voo. 


estranho a coisa toda não parecer um pesadelo
com tanto sol, a world music dos animais na
beira da mata

e tudo voa e tudo roda

façam suas apostas

as mãos que seguravam o bicho eram fortes, altas, como se poderia dizer de uma espécie que se projeta para cima. para o passageiro indubitavelmente havia sim e acima também de seus olhos e da escavadeira que o suspendia, uma grande colcha ondulando as coisas em direções indistintas, um lençol branco e quase solto no espaço que um animal que não fora feito para olhos baixos poderia perfeitamente compreender.
no centro do lençol, retorcendo-se de um lado a outro e pouquíssimo natural, um raio todo pintado de lilás, a chuva que nada como chuva ameaça, cobrindo um peito adolescente.
passa pra cá essa batata, protomalabares mãos em atividade: a primeira testou no ar o casco de bicho feito uma bola de boliche: pré-cuidadosa lançou num meio cuidado indefinível em relação à intenção que carregava ao decidi-lo num dos sofás de madeira trançada da varanda. a outra revezou com precisão e deve-se supor que sua intenção era bastante clara, o pacote plástico de batatas seguro e pela direita, quase com a aterrissagem do animal na almofada à esquerda sem muita importância.
com nem tanta coordenação chegavam também mais dois e acompanhados de ruídos novos: reto a trinta passos do arco da janela tião carregando com a boca um cachorro num zum zum zum de bpxxuu bpxxuu bpxxuu bpxxuu bpxxuu bpxxuu bpxxuu s.
mas o segundo bicho, muito mais escuro que o verde escuro que tendia para o musgo de casco do cágado: quase todo negro, em alguns momentos das costas rajado de um amarelo desafiador capaz de esquecer muitos cheiros, daqueles que por vezes ocorre em quadrúpedes quando veem ou sentem a carne de outros quadrúpedes.
dá licença. tião cortando já todo o espaço em direção aos primeiros ladrilhos do chão de cerâmica. de dentro ainda os dois sobre as duas, um pouco menores que o cavaleiro de cão: o que arremessara duvidosamente o cágado, com sua camisa e o desenho de um raio lilás em sua camisa, e o que arremessara o pacote de batatas. quase adultos, tinham o mesmo tamanho, talvez fossem muito menores que o peão.
tião dirigia-se ao segundo, os três mataram de novo uma vaquinha lá em cima. tô querendo falar com seu pai disso mesmo, se não tiver na rua.
saiu, tião. se tu der sorte encontra ele de noite, mas se quiser eu passo o recado.
cê fala então por favor que eu tive que jogar fogo, tava dando bicho e fica só a sujeirada de osso. o cão, enquanto a fala, olhava tudo, e de um jeito que poderia não olhar nada de olho. se bem que isso pode ser pensar e os bichos são bons de olhar para as coisas por outros membros. então o rabo não olhava o mesmo dos olhos. uns eram velhos, outro uma criança nua afastando os insetos no ar, fazendo voar a sopa do prato.

e agora o cachorro canta
quem diz é o cão (?)
sabe sentir dor
sabe usar a boca?
duas vacas morreram
esse mês deu chuva todos os dias
quem fala?
quem quer a dor
a boca que fala dói?
uma charada:
há somente uma boca?
quem leva na cauda os brincos
e sorri
a boca de dentes de ouro
das mães
e das cholas?

 *** 

CAP. 3: Uma chola que ri enquanto fala

fiquei me perguntando hoje se os cágados dormem.
atrás de uma mesa de fórmica, no centro da sala, j. catava pequenos insetos que insistiam em tentar a pele da filha. as duas estavam deitadas no chão em almofadas, alguns livros circundando os corpos, um pouco de pedra empilhada desenhava uma lareira. não muito longe em metros estavam também os dois meninos. o raio na camisa ainda estampava o peito do amigo do dono da casa, na tv carros coloridos faziam ruídos impossíveis e j. acarinhava a pele da filha, olhava as pequenas feridas vermelhas que faziam força para existir.
tô de saco cheio disso aqui, se fosse pra jogar mario kart eu ficava em casa.
então vai. pede pro tião te levar na rodoviária e pega o ônibus.
um olhava o outro e os dois amuados, três da tarde e chuva, a cozinha apinhada de comida.
foi a tarde ou foi algo como o que quisessem calcular, o cágado circulava pelo salão, vez ou outra esbarrava num pé ou mais de um.
j. e a pequena continuavam no mesmo lugar em silêncio, descansavam sobre as almofadas, a mãe olhando a filha ternamente que quase dormia.
e como na tarde anterior, chegaram os dois, agora seus ruídos molhados: para alguns eram novos. dessa vez foi o cão que avisou primeiro, vinha trotando e assim que entrou na casa ensaiou um derrape:

impossível com tanto peso, disse j. à filha, quase rindo.

o menino raio congelou por dois segundos, o pano não fazia a testa.
tenho um medo do caralho desse bicho.
faz nada não, só não brinca com a nara quando ele tiver perto que ele não gosta.
e então as botas do tião, gritando pesadas pro mato enquanto aproximavam-se da casa. o peão chegou à varanda e ficou ali mesmo.
o menino patrão levantou-se rápido, fez a reta até o maior. do lado de dentro ficaram cinco. as duas ainda recostadas no bom de estofado, a lareira queimava fininha, dizia um descanso que valesse. o cágado parecia concentrado, imóvel com olhos na meia porteira que o separava da grama. mais rajado que o normal, seu marrom quero ser tigre misturado à terra molhada, o cão negro desfilava o quanto podia pelo piso de homem, aproveitava enquanto tião não chegava, o mais alto era um bicho maior. o outro não conversava, estava igual ao cágado, mas olhava a tv.
                                                                                                       it´s me, mario!

muitas vozes já correm
quem fala                                                  
quem fala?                                                         quente quente quente frio
e quem ouve a fala?                                         mas poderia te dizer
                                                                             sem o menor embaraço
                                                                             da dureza das coisas
tá com fome, filha?                                           e de como é difícil quebrar um casco
                                                                             ou da resistência das manhãs
                                                                             uma análise qualitativa da água
            vocês fiquem aí                                     quando serve para molhar
            com seus rabos                                      o que fazem de fato as verduras que comem
            mas voltem na hora da janta

it´s me, mario!                                bôooôoi        ôoôooxxe
                                                                                                        ôooôooôooô                 boi

 o cão negro caminhava pela sala. o dono da fala ainda não voltara. o outro também ainda quase imóvel, joystick nas mãos como se pensasse nas mãos.
tião tá chateado com os cachorros, disse j. para o nada. a filha agora dormia a sono solto, como que ignorava o que se repetia no dia. menino e homem continuavam, confabulavam um plano que a ninguém mais parecia interessar muito.
fiquei me perguntando hoje que gosto devem ter essas vacas daqui, ainda não comi nenhuma carne.
o dono da casa voltava no instante imediato da fala, como é tão recorrente e tão pouco natural.
tião falou que morreu um menino ontem no vizinho, um escorpião no banheiro. falou pra gente voltar pra casa hoje com a minha mãe.

 *** 

CAP. 4: Segundo Maria, a intensidade da picada depende da diferença de idade entre quem passa o veneno e quem o recebe

muitos dias passaram, alguns atropelaram os outros e ora os dois adolescentes reclamavam da vagarosidade das tardes, ora queixavam-se de extinguirem-se tão depressa, como se o tempo se apressasse no seu trânsito de chegar a lugar nenhum.
as coisas ficavam como não deveriam ficar e quem diz agora muito bem poderia ser o cágado, sobre si e sobre a história:

o fim de tudo é que não se fala durante a morte.

podem sim, vir palavras da boca apoiada no patíbulo, olhos na tábua preparando-se para o que vieram, mas quem diz da morte é o corpo. pela primeira vez na vida, carlos, ainda com a camisa estampando a chegada de uma tempestade sobre sua terra, morria.
e nessa hora a terra estava completamente molhada, coube ao mínimo território o que planejara junto de outros há muitos anos, ainda que não tivesse culpa disso: debaixo de um teto, com fios e canos, dentro de um banheiro enquanto a água caía. nu, pela primeira vez na vida.
sempre há mães por todos os lados e a que olhava sua morte não era mesmo sua, mas era alguma. havia também dois meninos, pequenos, suas caudas ainda infantes, de brincos pequenos e pouco veneno, ao lado da mãe, como pedissem aprovação. muitos outros escondiam-se próximo a um ralo, havia muita água, apesar de gostarem geralmente disso.
o dono da casa, de longe, no corredor que dava para a porta aberta do banheiro, acabara de descobrir que não era dono da casa nem da terra nem de nada. imóvel, não se atrevia a dizer a fala, percebera que até o presente momento era mudo e talvez não houvesse o que ser feito.
tião estava no mato, como todos os dias, de sua parte já há muito decidira ser bicho. mas outra mãe estava por perto, enquanto o menino molhado pedia pela sua: j., abanando o rabo ao lado da pequena cadelinha vira-lata de rabo menor, ainda acarinhando a filha com os olhos. olhava o resto um pouco atenta e desinteressada. não havia corpo suficiente no chão para motivar o movimento, mas quando a filha fez que ia, mordiscou de leve a penugem perto do pescoço da menor e disse sem usar nada mais que o próprio pescoço que ficasse onde estava.

o cágado pensava tranquilo: há morte na morte se todos viram anjos.
de toda forma, para que houvesse justiça, um cágado tinha de ser cágado, com seu casco duro e agora carregando sem peso muito mais coisas, vivo.
caminhou em direção ao banheiro, viu os filhotes menores, o que atiçou-lhe o apetite, ia repetindo uma breve ladainha:

a vida nas cidades
não é mais possível
me leve para as cavernas
vou derrubar sua pilha de livros
me leve para as cavernas
onde não há contradição em mim
estava próximo de comer. fez um movimento leve mas suficiente, alcançaria.
estranhamente, ao ver a mãe, interrompeu-se.

pode ser que tenha amado. e ainda não se tornara humano.