SEÇÕES

nº 12

por Lucas Rolim


visão do infinito

vejo o terrível corpo de alguém que não conheço
deitado na terna música das pedras – no som arfante do lodo
na severa melodia dos alísios

um terrível corpo – paisagem antrópica na película vegetal

a dança estarrecida dos sóis sobre o ventre negro
meus pequenos sonhos loucos na manhã carnívora
– as primeiras vibrações da ternura mais remota

gestos de um rito diário – adorno cinético da antiga alquimia

deslizo pelo túnel das costelas – pela ferrovia óssea da noite
meus olhos chovem na dureza de uma nuvem torácica
cruzo as cicatrizes no campo risonho da memória

agora rasgar a plumagem opaca dos segredos
descer ao recôndito maquinário das corridas & chutes
fazer girar a doce roda das vontades à mercê de um abismo azul

a visão é um sentido egoísta – o tato é um garoto obsessivo

desemboco na roupa das vísceras & entoo a litania do amor
contemplo nos fragmentos de nudez a visão do infinito

***


wake up, mr. L!
acompanhado de John Cage

quando despir-se o místico por trás dos muros,
haverá uma turba de segredos aguardando passagem.
não existem falsas proposições. é preciso um ato ligeiro.

atravessar o ciclo dos vinte:
reencontrar infâncias num artefato muito antigo.

arrastar as cortinas da tarde:
enfrentar o pandemônio das ordens com Lentidão.

visito um oráculo asteca à procura de desvios na memória.
(devoro presságios para esquecer do futuro)

***


arcabouços da engrenagem de carne

                              atrás da testa,
                                     a ossatura obsoleta
                       é o muro das lamentações.
            o que se torna luz,
                     um delírio isolado
                             no zigurate.
           o eco dos gritos
                    no microcosmo
              é um menino perdido nas rugas
                do labirinto.

                               MUNDO EXTERNO & MIMESIS

       meu estado alheio é
   um girassol aéreo

                                     d
                                         a
                                     n
                                       ç
                                     a
                                        n
                                     d
                                       o
                                     no piso do crânio.

***


no pátio dos sonhos

I
uma geografia de dança sísmica
acende revoluções no corpo da noite

seções de encantamento prendem
os garotos selvagens na rinha luminosa
as visões sapateiam num ritmo de gargantas ferozes

um dos garotos agarra um delírio & torna ao vapor da mente
mergulha na língua multivisual & traz a historiografia do sono

II
teu nome geométrico acende minha casa de sons
– lembro que há uma floresta com teu nome em Pasárgada

meu corpo se converte em moléculas fractais & em poeira de mim
– eu mapeio teu rosto feito um talismã secreto

III
todas as cores os mistérios
as consciências que flutuam sobre a noite
têm um peso de terra que revolve aos cuidados da manhã

mas é preciso arriscar-se e conhecer o sol
– é preciso aprender a transformar-se em dia