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Secura

por Fernanda Martins


Secura

é violento enquanto
setenta-por-cento
de um corpo seja
Água
é mesmo violento
que seja Água e seco
seja secura de deserto
suor e lágrima são
Água
e sal (mas) não posso
beber ou posso
beber e morrer
na secura do deserto
plano do grande plano
de toda a infâmia ironia
chamar de terra da garoa
onde de Água não se tem
notícia: só secura
(ou post it da loucura)
e de seco não basta nem
mesmo a ausência d'
Água
como os tiros surdos e
os tambores fúnebres
o cinza frio enquanto cor
que não serve de nada
e de seco não basta nem
o coração de quem espera o fim
do mito do medo latente
do tiro enterrado no escuro
do seco soco da seca
e implora à Oyá um socorro
porque de seco tem também
a voz do homem de preto
a dor do disparo na carne
a melanina
o cromossomo
a pobreza (e a)
Água
: seria mais fácil se bebêssemos projéteis